quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O Canário do Reino de FERREIRA GULLAR.

agora quis descer, e não havia chão; ou descer seria subir? mas o espaço se perdia sem margem sempre, sempre. ela, a águia, era o centro. se se movesse para o alto de si, para baixo de si, ainda seria o centro. sou o centro, pensava já com certo orgulho o pássaro. mas se deu a voar numa só direção, no esbanjamento do seu privilégio. e a sua minúscula figura em marcha assinalava sempre, uma referência entre um mesmo ponto de vazio e outro qualquer que não quisesse. depois, a necessidade de pousar cresceu como um olho de obsessão em seu corpo. e não havia terra. apenas o ar. o ar que só era um abismo porque ela estava ali. voava, e o movimento das asas moía-lhe as articulações. ela, a águia, sabia (não sabia por quê) que uma águia em vôo não deve fechar as asas, e por isso, talvez gemia e continuava. agora, o sangue, descendo-lhe das axilas, ensopava-lhe a plumagem do peito. mas águia não parou. não parou nunca (nunca, nunca, etc.). nem depois que seu corpo começou a rodar precipitado. ninguém dirá quando veio a morte. é certo, porém, que ela não teve a alegria de uma última descoberta. mas vós tereis: ela caía na mesma direção de seu vôo, como se o continuasse.


(do poema "os jogadores de dama" - ferreira gullar)

0 comentários:

Postar um comentário

Seguidores