(Acerca do acorrido no decorrer do rapto de um aluno do curso para crianças prodígio do Instituto Noroeste de Birigüi. Envolvendo Vandergleison Ramos, ex-investigador da polícia civil, e a amante Fátima “Zoroastra” de Oliveira, balconista de uma banca de revistas nas imediações da escola, na Ribeiro de Barros, e metida à vidente nas horas vagas. E um suposto mentor ainda desconhecido)
_Ei... Peraí.
_Peraí o quê?
_Me solta.
_Cala a boca, porra!
_Eei – tentei reagir, mas enfiaram aquele saco fedido na minha cabeça. Levei um cascudo e amuei, quietinho, sem palavra.
Era uma mulher e um homem.
Não que tenha visto, foi tão rápido. Senti os peitos moles dela no rosto quando me abduziram.
E depois ela falando, falando, falando – e como falava o diabo da mulher... – O sujeito só respondia com um “huumm” ou outro de vez em quando.
Cheiro de fumaça de cigarro vagabundo no ar.
Os pneus devorando asfalto.
O carro falhando um pouco.
As velas?
Não, definitivamente não eram as velas, modelo antrior a injeção eletrônica. algum problema na carburação
Bem...
E ela falando.
E os “huunns” dele.
E minha cara enfiada no estofamento do banco de trás por um tempo que me pareceu uma eternidade.
De que me adiantava ali ter aprendido a tocar piano com cinco. Ter descoberto Nietzsche numa das prateleiras de baixo da biblioteca do vovô com seis e, com sete, já estar vencendo o velho, que havia sido campeão estadual de xadrez, um dos dez mais da liga brasileira, em partidas que não excediam meia hora?
De que adiantava ali estudar naquele colégio de frescos?
Garotos especiais, que piada. Punheteirinhos pedantes, isso sim. Todos nós, dominando álgebras e línguas, e sem coragem para chegar na filha da vizinha.
Para bolinar a empregada.
Esfolar um gato.
Roubar duas ou três latas de cerveja da geladeira e fazer uma festa; sei lá, sem coragem para fazer qualquer dessas coisas que devem ser importantes de se fazer antes que venha a velha ceifadeira com a foice enferrujada dela e zás, good by cruel world.
_Greison?
_Que vaca!, não fala meu nome – retrucou o homem ao volante.
Rodávamos há muito sem chegar a lugar algum.
Agora por uma estrada de terra.
_Aah, esqueci.
_Já me chamou de Vander, de Ramos, de Greison. “Greison” ainda por cima. Daqui a pouco vai dar o número da minha identidade e endereço.
_... – ela ensaiou uma desculpa.
Ele só olhou.
Deu prá sentir de dentro do saco que ele só olhou.
Como se fosse um poço de inteligência; socorro! Como se também não tivesse dado serviço.
Foi quando ela mudou de voz e se meteu a dizer que os moleques todos que o Greison ajudou a passar (dessa para melhor) o acompanhavam. Que podia vê-los ali mesmo no carro mesmo, ensangüentados, e que aquilo era mau sinal.
E ele:
“Ô, Zoroastra, se negócio seu de vidente colasse você não estaria com calo no umbigo de encostar no balcão da banca pra ganhar a miséria que ganha, acertava na loteria. Além do mais eu era da polícia na época, tava a trabalho”.
E ela:
“Mas eu tô vendo. Ó, no banco de trás, aos pés do garoto.
E ele:
“Huumm”.
E eu pensei:
“Puta-que-pariu, é numa hora dessas que quem tem cu tem medo até de ter medo”.
E continuei sem me mexer.
Quietinho.
Me fingindo de morto.
No entanto, apesar do fedor saco, do galo latejando e da claustrofobia, era como se um maldito grilo não parasse de cricrilar dentro da minha cabeça.
Estabelecendo conexões.
Um animal intelectual, isso é que eu era, e por mais que quisesse não podia me furtar dessa sina.
Seu filho está em nosso poder – dizia o bilhete que ela leu apenas uma vez em voz alta e eu já decorei. – Se quiser o menino vivo, acomode 500 mil em uma bolsa dessas de nylon, e deixe-a no chão, ao lado da última lata de lixo da estação ferroviária, à esquerda de quem entra, e assim que vir o último trem chegando. Tome o trem. Vá sozinho. Se percebermos qualquer movimento estranho ele morre.
Pude visualizar a mala, o dinheiro, e até as manchetes nas páginas policiais do outro dia: “Seqüestrado A.J. Junior, filho prodígio do empresário calçadista...”. Pude visualizar a cena toda, menos meu pai andando de trem metido num daqueles ternos engomados dele. Surpreendente também para o casal – cricrilou o grilo – o português com que fora escrito o bilhete, o que deixava claro o envolvimento de uma terceira pessoa. E a língua presa da mulher na hora dos “Greison”, aquele negócio de calo no umbigo de trabalhar por merrecas numa banca. Dona Fátima, quem mais? Ou melhor, Fátima Zoroastra, a jornaleira gorda viciada em chocolate da esquina da escola. Quantas vezes eu não comprei National Geographic ali?
Era viver para contar.
Mas com aqueles dois já seria sorte se encontrassem o caminho que levava cativeiro.
_Vira à direita na próxima.
_Huumm.
_Vira á direita, pô!, tá surdo!.
_Não gosto de palpite quando tô dirigindo.
_Mas já é a terceira vez que a gente passa por essa porteira azul.
_Huumm.
_Vira, Greison.
_Huummm.
_Vira.
Amadores...
(augusto fiorin)
Bem...
E ela falando.
E os “huunns” dele.
E minha cara enfiada no estofamento do banco de trás por um tempo que me pareceu uma eternidade.
De que me adiantava ali ter aprendido a tocar piano com cinco. Ter descoberto Nietzsche numa das prateleiras de baixo da biblioteca do vovô com seis e, com sete, já estar vencendo o velho, que havia sido campeão estadual de xadrez, um dos dez mais da liga brasileira, em partidas que não excediam meia hora?
De que adiantava ali estudar naquele colégio de frescos?
Garotos especiais, que piada. Punheteirinhos pedantes, isso sim. Todos nós, dominando álgebras e línguas, e sem coragem para chegar na filha da vizinha.
Para bolinar a empregada.
Esfolar um gato.
Roubar duas ou três latas de cerveja da geladeira e fazer uma festa; sei lá, sem coragem para fazer qualquer dessas coisas que devem ser importantes de se fazer antes que venha a velha ceifadeira com a foice enferrujada dela e zás, good by cruel world.
_Greison?
_Que vaca!, não fala meu nome – retrucou o homem ao volante.
Rodávamos há muito sem chegar a lugar algum.
Agora por uma estrada de terra.
_Aah, esqueci.
_Já me chamou de Vander, de Ramos, de Greison. “Greison” ainda por cima. Daqui a pouco vai dar o número da minha identidade e endereço.
_... – ela ensaiou uma desculpa.
Ele só olhou.
Deu prá sentir de dentro do saco que ele só olhou.
Como se fosse um poço de inteligência; socorro! Como se também não tivesse dado serviço.
Foi quando ela mudou de voz e se meteu a dizer que os moleques todos que o Greison ajudou a passar (dessa para melhor) o acompanhavam. Que podia vê-los ali mesmo no carro mesmo, ensangüentados, e que aquilo era mau sinal.
E ele:
“Ô, Zoroastra, se negócio seu de vidente colasse você não estaria com calo no umbigo de encostar no balcão da banca pra ganhar a miséria que ganha, acertava na loteria. Além do mais eu era da polícia na época, tava a trabalho”.
E ela:
“Mas eu tô vendo. Ó, no banco de trás, aos pés do garoto.
E ele:
“Huumm”.
E eu pensei:
“Puta-que-pariu, é numa hora dessas que quem tem cu tem medo até de ter medo”.
E continuei sem me mexer.
Quietinho.
Me fingindo de morto.
No entanto, apesar do fedor saco, do galo latejando e da claustrofobia, era como se um maldito grilo não parasse de cricrilar dentro da minha cabeça.
Estabelecendo conexões.
Um animal intelectual, isso é que eu era, e por mais que quisesse não podia me furtar dessa sina.
Seu filho está em nosso poder – dizia o bilhete que ela leu apenas uma vez em voz alta e eu já decorei. – Se quiser o menino vivo, acomode 500 mil em uma bolsa dessas de nylon, e deixe-a no chão, ao lado da última lata de lixo da estação ferroviária, à esquerda de quem entra, e assim que vir o último trem chegando. Tome o trem. Vá sozinho. Se percebermos qualquer movimento estranho ele morre.
Pude visualizar a mala, o dinheiro, e até as manchetes nas páginas policiais do outro dia: “Seqüestrado A.J. Junior, filho prodígio do empresário calçadista...”. Pude visualizar a cena toda, menos meu pai andando de trem metido num daqueles ternos engomados dele. Surpreendente também para o casal – cricrilou o grilo – o português com que fora escrito o bilhete, o que deixava claro o envolvimento de uma terceira pessoa. E a língua presa da mulher na hora dos “Greison”, aquele negócio de calo no umbigo de trabalhar por merrecas numa banca. Dona Fátima, quem mais? Ou melhor, Fátima Zoroastra, a jornaleira gorda viciada em chocolate da esquina da escola. Quantas vezes eu não comprei National Geographic ali?
Era viver para contar.
Mas com aqueles dois já seria sorte se encontrassem o caminho que levava cativeiro.
_Vira à direita na próxima.
_Huumm.
_Vira á direita, pô!, tá surdo!.
_Não gosto de palpite quando tô dirigindo.
_Mas já é a terceira vez que a gente passa por essa porteira azul.
_Huumm.
_Vira, Greison.
_Huummm.
_Vira.
Amadores...
(augusto fiorin)


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