O que eu tinha que fazer era recondicionar minha mente e parar de pôr a culpa em forças externas. Tinha que me educar, me livrar de certa bagagem. Passar algum tempo em solidão era o que me faltava. O que quer que fosse a contracultura, eu já vira o bastante. Estava farto do modo como minhas letras haviam sido extrapoladas, seus significados subvertidos em polêmicas, e de ter sido ungido como o Mano-Mor da Rebelião, Sumo Sacerdote do Protesto, Tsar da Dissensão, Duque da Desobediência, Líder dos Aproveitadores, Kaiser da Apostasia, Arcebispo da Anarquia, O Maioral. De que diabos estavam falando? Títulos horríveis sob qualquer aspecto que se quisesse olhar.No início só fui capaz de fazer pequenas coisas, ações locais. Táticas, realmente. Coisas inesperadas como derramar uma garrafa de uísque em cima da cabeça e entrar em uma loja de departamentos, e agir como bêbado, sabendo que todos ficariam falando sobre aquilo quando eu fosse embora. Eu esperava que a notícia se espalhasse. O que mais me interessava era conseguir espaço para minha família respirar. O mundo espectral inteiro podia ir para o inferno. A primeira coisa a descartar, então, era qualquer forma de auto-expressão artística que me fosse cara. Minha imagem externa teria que ser um pouco mais desconcertante e enfadonha. É difícil viver desse jeito. Consome todo seu esforço. Mas a arte não tem importância perto da vida, e você não tem escolha. De qualquer maneira eu não tinha mais fome daquilo. Criatividade tem muito a ver com experiência, observação e imaginação. Se algum desses elementos está faltando a coisa não funciona. E para mim, agora, era impossível observar qualquer coisa sem ser observado. Mesmo quando andava até a loja da esquina alguém me reconhecia e se esgueirava em busca de um telefone.
Em Jerusalém fui fotografado no muro das lamentações usando solidéu e a imagem foi transmitida instantaneamente para o mundo todo. Da noite para o dia todos os jornais sensacionalistas me converteram em sionista, o que ajudou um pouco. Ao voltar gravei rapidamente um disco que me pareceu de cowntry-western, e me certifiquei de que soasse bastante contido e domesticado. A imprensa musical não soube o que fazer com ele. Usei também uma voz diferente. As pessoas coçavam a cabeça. Dei início a um rumor de que estaria largando a música e indo para a faculdade, a Escola de Design de Rhode Island. “Ele não vai durar um mês”, disseram algumas pessoas. E os jornalistas começaram a publicar perguntas do tipo: “O que aconteceu com o velho eu dele?”. Eles também podiam ir para o inferno. Foram publicadas histórias sobre eu tentando me encontrar, de que estava em uma eterna busca, sofrendo de algum tipo de tormento interior. Tudo isso me pareceu bom. Então gravei outro álbum (um duplo) onde simplesmente atirei contra a parede tudo o que consegui pensar. O que quer que tenha grudado nela foi para o disco. A seguir voltei, catei tudo o que não havia grudado e também pus no disco. Faltei ao Woodstock – simplesmente não estava lá. Altamont – sympathy for de devil –, faltei a esse também. Lancei um disco inteiro baseado em contos de Tchekhov e os críticos pensaram que era autobiográfico. Isso foi bom. Fiz um papel em um filme, usei trajes de caubói e galopei estrada afora. Nada de muito exigente. Acho que fui naïf. Assim a velha imagem lentamente se desvaneceu. Com o tempo não me vi mais sob o dossel de uma influência maligna. Até que, por fim, anacronismos diferentes foram lançados sobre mim. Anacronismos de dilemas menores, embora pudessem parecer maiores: Legenda, Ícone, Enigma (“Buda em Trajes Ocidentais” – o meu favorito), coisas desse tipo, mas estava tudo bem. Esses títulos eram plácidos e inofensivos, surrados, fáceis de carregar por aí. Profeta, Messias, Salvador, esses são difíceis.
(extraído da autobiografia: crônicas – volume um, de bob dylan)

Muito Massa!
ResponderExcluirValeu!