Havia acará-gel – uma espécie de tilápia – mais conhecido como caroço de manga.
Havia as corvinas adaptadas para a água doce. Povoamento de represas.
Um tucunaré pequeno.
Uma traíra grande.
Pacus prata e abundantes piranhas.
Pensava na Silvia ao enfiar os dedos pelas guelras de uma das que veio à flor d’água roncando quando ergui a rede.
Amarelona.
Estalando os dentes.
Segurei firme.
O nível da água me chegando ao pescoço e o moleque atrás. O samburá apoiado na bóia.
_Carrega esse você – ele diz.
_Por quê?
_Aaah.
_Tá com medo?
_Minha barriga é que tá com medo.
_Como assim, é um frio?
_É.
_O peixe é que tem que ter medo de você.
_E se ele me morder?
_Não vai te morder, ó, é de arame, tá vendo – balancei o samburá com os outros peixes, onde tirei também a piranha depois de apertá-la mais.
Com raiva.
Até que guinchasse.
Além de tudo, de meus pensamentos longe, lá na cidade. Além ter dado um trabalho danado de tão bem malhada que ela estava, não gostava de inversões do tipo o bicho que a gente come estar faminto pela gente.
Se debateu.
_Paaai!!
_Não esquenta – puxei a bóia com ele para mais perto. A água batendo um pouco abaixo do meu peito agora.
Nunca fui um cara que agüenta calado.
Que releva.
Que deixa para depois.
Sempre decidi as paradas no ato.
E com relação a Silvia, me matava não ter as rédeas nas mãos.
Ou pior.
Ter as mãos atadas.
Era uma vontade de chutar o balde. No entanto não conseguia imaginar como seria a vida sem ela.
Será que tinha resolvido de uma vez a situação ou apenas se refestelaram?
A Maria Carolina, codinome P!nk, uma incógnita indissolúvel pra mim.
Seus melhores amigos, da internet.
Entidades etéreas. Sem endereço conhecido.
A Jesselôca.
O Pandemonium.
A Lábios de Limão.
E também Olhos de Estrela, de quem não havia descoberto o gênero.
Era entrar alguém em seu quarto – eu, alguém da secretaria da escola, do juizado de menores, da polícia, FBI – e imediatamente a janelas sumiam do monitor.
Ironicamente a mãe tinha desenvolvido comportamento semelhante quando no PC do escritório, de madrugada.
Foda-se a internet!
É o que penso.
Vale o quanto pesa.
O Pandemonium não passa de um mesticinho com brinco de argola na orelha esquerda e mexas verdes no cabelo.
A Jesselôca eu nunca vi.
Olhos de Estrela menos ainda.
A Lábios de Limão é azedinha..., nada, jamais provaria. Veio em casa outro dia. Uma garota cheia de sardas.
O duro dos peixes é limpá-los.
Você desiste se pensa que sem espetar as mãos uma única vez, pode saborear uma bela porção de filés de tilápia acompanhada de cerveja gelada. Se pensa que tem que ir mesmo à Buritama. Que a cachaça dos pedreiros acabou e você precisa repor. Enfiar outra garrafa na toca.
Mas depois de ontem; meu amigo...
Dos dois bêbados na rede.
Você e o seu moleque.
Você bêbado da dita enquanto ele de estrelas cadentes. Aquelas como a noite sucede a tarde, sucederam os gaviões. É claro que ele não vai concordar em não ver a bagaceira dos peixes.
Em não comer o que pescou.
Então, dê-lhes faca.
E para evitar acidentes, sempre o cuidado de degolar as piranhas antes de começar a arrancar-lhes as escamas.
Começou a chover forte e continuado.
O horizonte inteiro desapareceu num tom gris com textura de camurça.
Um calor era macio, de estufa.
Relâmpagos distantes.
Tentei ligar pra casa.
Dizer: “Tô com saudades, amanhã de manhã a gente volta”.
Quem ia se importar?
E mais: malditos celulares, sempre que a gente precisa estão fora da área de cobertura.
(augusto fiorin)
terça-feira, 4 de maio de 2010
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