terça-feira, 15 de junho de 2010

É Chegada A Vigésima Quinta Hora, O Admirável Mundo Novo.

1.
Celular novo via Sedex. O antigo, um dia, no bolso do jeans, de fogo numa festa, atirou-se comigo na piscina.
O visor, desse agora, é sensível ao toque. Modelo igual a letras e algarismos.
E.
Uma canetinha?! – penso.
Enquanto ele: Oba uma espada!!!
Conecto o carregador à tomada e ao carregador o aparelho – ingerir alimento.
E ponto.
Mas, logo.
“Suas definições de vírus foram atualizadas”
_Ãã?
_Eu não disse nada.
_Disse sim.
_Eu não.
_Com voz de aeroporto.
_Ah, foi o anti-vírus.
_O anti-virus??
_A nova versão do Avast que eu instalei.
_O anti-vírus fala?
_É chegada a vigésima quinta hora – digo –, o admirável mundo novo.
E ele pára.
E pensa.
E cala.



2.
_Lelê, preciso que você vá ao banco pra mim.
_Agora, chefe?
_Tô acabando de preparar o depósito – eu falo, já às voltas com os cheques e o envelope.
_E eu? – o moleque pergunta.
_Você vai junto, pra ir aprendendo.
_Mas eu já sei.
_Tá fora de hora, é melhor ir um adulto.
_E a Lelê é adulto?
_...
_Se liga! – ela diz.
E saem.
E.
Não demora.
_Pai?
_Já.
_O caixa eletrônico tava em greve.
_Todos fora de serviço – ela devolve o envelope.
“AS MÁQUINAS VÃO DOMINAR O MUNDO”.
_O quê? – perguntam em coro.
_Nada, pensei em voz alta.
E.
Horóscopo de hoje: “O que você desejar será. Eis o grande problema. Será que você controla seus desejos?”.


3.
Resolvo as cruzadas.
Deixo o jornal.
Pego o telefone.
Ele lá.
Tento uma ligação.
Não consigo.
Ele ainda lá (de butuca).
Tento de novo.
Nada.
Então, não é que o diabo do celular fala.
E com voz própria.
De aeroporto.
Quase deixo cair.
Não entendo o início da frase, apenas o ‘por favor’ no final.
Ele repete.
Entendo outra vez só o ‘por favor’.
O meleque ri.
E diz.
_Daqui a pouco ele saca a espadinha dele e toma o controle.
Eu olho.
Só.



(Augusto fiorin)

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