Girei a maçaneta e empurrei.
Trancada.
Acariciei as chaves no fundo do bolso.
Bobamente altruísta saí de casa para lhe dar espaços. Desenrolar chão sob seus pés. Como se chão fosse tapete, e vermelho.
Agora me amedrontava abrir a porta sem aviso.
Passarinho me contou que o Péricles andava fazendo dinheiro.
Vendendo imóveis abaixo do preço.
Há dias em vão eu o procurava.
E a cada dia mais difícil.
No escritório, no apartamento quando telefonava, havia ido ou não era hora de chegar.
O Munir na mesma, doido de pedra.
A Abadia reunindo exércitos de ocupação.
O alarmezinho de dentro apitando: “Cuidado! Perigo, perigo!”
Acariciei as chaves outra vez.
A cabeça do menino.
No relógio dez e tanto da madrugada.
Bati.
_Esqueci a chave no rancho!
_Não esquece a cabeça por que tá grudada – ouvi enquanto abria.
_Saudade?
Se esquivou do beijo.
Festejou o João.
_E o meu hominho, lindo, meu sujinho de sol?
Insisti em colar meu rosto no dela.
Insidiosa serpente emplumada, ir subindo por baixo dos cabelos.
_Pára, por favor.
Não parei.
_Pára.
_...
_Naaão.
_...
_ Já disse que não – foi seca. E do último não ao tapa uma fração de segundos.
Menor o tempo de reação.
Olhamo-nos assustados.
Se atirou no sofá.
Sangue num dos cantos da boca.
Lágrimas.
_Não foi nada mãe – o menino consolou.
Eu e a P!nk nos esbarramos no corredor. O retrato perfeito de uma noite perdida na rede.
Comentei algo sobre olheiras naquela idade e fui deliberadamente cruel quanto às espinhas.
Tinha com o rosto em fogo por espremê-las.
Gordinha e com a pele horrível. Certa vezes falou da impressão de que as espinhas eram na verdade órgãos excretores expecialmente arquitetados para eliminar imundícies de sob a pele. Cuzinhos transitórios, auxiliares do cu-mór que surgiam nos lugares mais variados, cumpriam sua função e cicatrizavam.
_É uma sensação maravilhosa andar por coberta de bombas-relógio de excrementos – disse dessa vez.
E eu pensei: “Que fina ironia, quem sai aos seus não degenera”.
_Que foi? – referiu-se a mãe.
_Sei lá, deve estar de chico de novo. É chico o tempo todo nessa casa.
Ô frieza.
Ô diabo de não-sentir analgésico.
De me armar a proteger já a primeira face.
Como se fosse possível evitar o inevitável.
Coisa cega.
Gelada.
Sem pai, mãe ou abrigo sob o sol.
Sem descanso.
Então chorei como há muito não chorava. Chorei de fazer tremular as divisórias do box. De sensibilizar as paredes, fazê-las arfar.
Depois assoei o nariz no papel higiênico.
Lavei o rosto.
Me olhei no espelho.
Recentemente soubera do Paulo. Que tinha se conformado, posto a cabeça no lugar. A culpa não era de ninguém. Ele é que por si foi ficando voraz.
Serviu de lição.
Comandava das sombras agora.
Muitos valetes cairiam antes de lhe botarem as mãos outra vez.
Gente sua na pedra.
Que é onde se bate o martelo. Onde tudo o que se queira comprar há quem venda e tudo que se queira vender há quem compre.
Gente sua pelas garagens.
Infiltrada.
Jogando o jogo.
_Isso não pode mais acontecer – disse Silvia mais tarde. Cheirava à cânfora da pomada que passou no rosto.
_...
_Acabou o respeito.
_...
_Você me bateu.
_Você bateu, eu reagi.
(Pausa)
_No quê cê tá pensando? – perguntei.
Imaginava o pior: “Pronto, ela e o camarada se acertaram”. Mas qual, ficou por um tempo pensativa e..., desabou outra vez.
Dessa vez em meu ombro.
_Certeza de que cê não tem nada pra me contar?
O quente das lágrimas atravessavam o pano da camisa.
_Alguém te importunando?
_...
_Silvia?
_...
Dou três chances antes de tomar qualquer atitude. Sempre, com relação a qualquer coisa ou pessoa.
É bem dizer um sistema, um modo de vida.
Três toques.
Três apitos.
Uma lei minha, tácita, não mania ou superstição.
Como quando você diz para uma criança: “Não mexe aí”. “Pára”. “Ó, é a última vez”.
E era a segunda que lhe perguntava o que é que tava acontecendo?
Se tinha algo para me contar?
Ela obviamente sabia do que eu falava. Todos aqueles anos juntos não tinham sido em vão. Criando os filhos assim, tratando da vida.
Na terceira vez não sei do que sou capaz.
Já devo ter dito que nunca fui de agüentar por muito tempo que me pisassem nos calos.
E até amor tem limite.
E insegurança.
Certo dia, quando ainda tínhamos dois carros, e os telefonemas – no início sempre discretos – ainda nem incomodavam tanto, de passagem vi o que ela usava no estacionamento do supermercado.
Meio de semana.
Um calor insuportável.
Dei a volta no quarteirão e parei.
Na memória as tardes passadas com a mulher do Paulo, em que ela deixava o seu carro num lugar público e saíamos no meu.
Eu descconfiava, mas foi ali que a ficha caiu.
E como é amargo digerir do próprio veneno.
Tanto que desentendi.
Rodei aparvalhado pelo labirinto de gôndolas, pensando que talvez não fosse mais capaz de administrar minha própria vida. Há muito não entreva num mercado ou comprava cuecas. Logo não saberia mais nem limpar a bunda sozinho.
Será que se conheceram no supermercado, encoxando-se nas filas dos caixas? De namoro ao escolher a marca do sabão em pó?
Queria encontrá-la.
Tomar um refrigerante gelado.
Encontrei parada com o carrinho e ele vindo todo sorridente de lá.
Ela me viu.
Ele entendeu seu cumprimento sem graça apenas quando encostei.
_Tudo bem? – estendi a mão.
_Sua esposa??
Filho da puta! Como se não soubesse.
_Confundi com a minha cunhada.
Mandei o Afonso checar.
De cara não levantou nome nem o que fazia.
A coisa veio pingando aos poucos.
De cara só que vivia pegando mulher casada. Que era um estilista na coisa, um expert.
Daí em diante apenas um carro. Desconfiança generalizada. E apelando para os meus brios, passei eu mesmo a escolher meus objetos de uso pessoal.
Daí em diante o bisturi da doçura.
Moita.
Dissimulação.
Trancada.
Acariciei as chaves no fundo do bolso.
Bobamente altruísta saí de casa para lhe dar espaços. Desenrolar chão sob seus pés. Como se chão fosse tapete, e vermelho.
Agora me amedrontava abrir a porta sem aviso.
Passarinho me contou que o Péricles andava fazendo dinheiro.
Vendendo imóveis abaixo do preço.
Há dias em vão eu o procurava.
E a cada dia mais difícil.
No escritório, no apartamento quando telefonava, havia ido ou não era hora de chegar.
O Munir na mesma, doido de pedra.
A Abadia reunindo exércitos de ocupação.
O alarmezinho de dentro apitando: “Cuidado! Perigo, perigo!”
Acariciei as chaves outra vez.
A cabeça do menino.
No relógio dez e tanto da madrugada.
Bati.
_Esqueci a chave no rancho!
_Não esquece a cabeça por que tá grudada – ouvi enquanto abria.
_Saudade?
Se esquivou do beijo.
Festejou o João.
_E o meu hominho, lindo, meu sujinho de sol?
Insisti em colar meu rosto no dela.
Insidiosa serpente emplumada, ir subindo por baixo dos cabelos.
_Pára, por favor.
Não parei.
_Pára.
_...
_Naaão.
_...
_ Já disse que não – foi seca. E do último não ao tapa uma fração de segundos.
Menor o tempo de reação.
Olhamo-nos assustados.
Se atirou no sofá.
Sangue num dos cantos da boca.
Lágrimas.
_Não foi nada mãe – o menino consolou.
Eu e a P!nk nos esbarramos no corredor. O retrato perfeito de uma noite perdida na rede.
Comentei algo sobre olheiras naquela idade e fui deliberadamente cruel quanto às espinhas.
Tinha com o rosto em fogo por espremê-las.
Gordinha e com a pele horrível. Certa vezes falou da impressão de que as espinhas eram na verdade órgãos excretores expecialmente arquitetados para eliminar imundícies de sob a pele. Cuzinhos transitórios, auxiliares do cu-mór que surgiam nos lugares mais variados, cumpriam sua função e cicatrizavam.
_É uma sensação maravilhosa andar por coberta de bombas-relógio de excrementos – disse dessa vez.
E eu pensei: “Que fina ironia, quem sai aos seus não degenera”.
_Que foi? – referiu-se a mãe.
_Sei lá, deve estar de chico de novo. É chico o tempo todo nessa casa.
Ô frieza.
Ô diabo de não-sentir analgésico.
De me armar a proteger já a primeira face.
Como se fosse possível evitar o inevitável.
Coisa cega.
Gelada.
Sem pai, mãe ou abrigo sob o sol.
Sem descanso.
Então chorei como há muito não chorava. Chorei de fazer tremular as divisórias do box. De sensibilizar as paredes, fazê-las arfar.
Depois assoei o nariz no papel higiênico.
Lavei o rosto.
Me olhei no espelho.
Recentemente soubera do Paulo. Que tinha se conformado, posto a cabeça no lugar. A culpa não era de ninguém. Ele é que por si foi ficando voraz.
Serviu de lição.
Comandava das sombras agora.
Muitos valetes cairiam antes de lhe botarem as mãos outra vez.
Gente sua na pedra.
Que é onde se bate o martelo. Onde tudo o que se queira comprar há quem venda e tudo que se queira vender há quem compre.
Gente sua pelas garagens.
Infiltrada.
Jogando o jogo.
_Isso não pode mais acontecer – disse Silvia mais tarde. Cheirava à cânfora da pomada que passou no rosto.
_...
_Acabou o respeito.
_...
_Você me bateu.
_Você bateu, eu reagi.
(Pausa)
_No quê cê tá pensando? – perguntei.
Imaginava o pior: “Pronto, ela e o camarada se acertaram”. Mas qual, ficou por um tempo pensativa e..., desabou outra vez.
Dessa vez em meu ombro.
_Certeza de que cê não tem nada pra me contar?
O quente das lágrimas atravessavam o pano da camisa.
_Alguém te importunando?
_...
_Silvia?
_...
Dou três chances antes de tomar qualquer atitude. Sempre, com relação a qualquer coisa ou pessoa.
É bem dizer um sistema, um modo de vida.
Três toques.
Três apitos.
Uma lei minha, tácita, não mania ou superstição.
Como quando você diz para uma criança: “Não mexe aí”. “Pára”. “Ó, é a última vez”.
E era a segunda que lhe perguntava o que é que tava acontecendo?
Se tinha algo para me contar?
Ela obviamente sabia do que eu falava. Todos aqueles anos juntos não tinham sido em vão. Criando os filhos assim, tratando da vida.
Na terceira vez não sei do que sou capaz.
Já devo ter dito que nunca fui de agüentar por muito tempo que me pisassem nos calos.
E até amor tem limite.
E insegurança.
Certo dia, quando ainda tínhamos dois carros, e os telefonemas – no início sempre discretos – ainda nem incomodavam tanto, de passagem vi o que ela usava no estacionamento do supermercado.
Meio de semana.
Um calor insuportável.
Dei a volta no quarteirão e parei.
Na memória as tardes passadas com a mulher do Paulo, em que ela deixava o seu carro num lugar público e saíamos no meu.
Eu descconfiava, mas foi ali que a ficha caiu.
E como é amargo digerir do próprio veneno.
Tanto que desentendi.
Rodei aparvalhado pelo labirinto de gôndolas, pensando que talvez não fosse mais capaz de administrar minha própria vida. Há muito não entreva num mercado ou comprava cuecas. Logo não saberia mais nem limpar a bunda sozinho.
Será que se conheceram no supermercado, encoxando-se nas filas dos caixas? De namoro ao escolher a marca do sabão em pó?
Queria encontrá-la.
Tomar um refrigerante gelado.
Encontrei parada com o carrinho e ele vindo todo sorridente de lá.
Ela me viu.
Ele entendeu seu cumprimento sem graça apenas quando encostei.
_Tudo bem? – estendi a mão.
_Sua esposa??
Filho da puta! Como se não soubesse.
_Confundi com a minha cunhada.
Mandei o Afonso checar.
De cara não levantou nome nem o que fazia.
A coisa veio pingando aos poucos.
De cara só que vivia pegando mulher casada. Que era um estilista na coisa, um expert.
Daí em diante apenas um carro. Desconfiança generalizada. E apelando para os meus brios, passei eu mesmo a escolher meus objetos de uso pessoal.
Daí em diante o bisturi da doçura.
Moita.
Dissimulação.
(augusto fiorin)

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