segunda-feira, 23 de agosto de 2010

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É melhor eu avisar logo que não sou um iluminado, e que pessoa alguma nessa sala jamais vai se tornar um iluminado. Não há tal coisa como uma pessoa iluminada. Isso é uma contradição. Gostaria também de dizer que o que está acontecendo aqui não é ensino de qualquer espécie. Não há nada a ser ensinado aqui, porque não há ninguém aqui que precisa aprender nada. Tudo o que está acontecendo, na realidade, é uma reunião de amigos lembrando-se de algo que talvez tenham perdido ou de que tenham se extraviado. Algumas das pessoas presentes, inclusive, têm se lembrado de já terem percebido, ou vislumbrado, o que eles pensam que foi perdido. Mas a natureza do que nós pensamos que se perde é atemporal, e curiosamente, por absolutamente simples e imediata, é a única coisa que jamais nos deixou. É o simplesmente ser. O ser sem o conhecimento de ser. O estar sem o conhecimento de estar. Como quando somos crianças. Mas aí chega alguém e diz: “Você é fulano”. “Você é sicrano”. “Você é uma pessoa”. E de alguma forma, a mente – o pensamento 'eu', a idéia de que 'eu sou uma pessoa’ – assume a energia do ser, identificando-o como fulano, ou sicrano, ou com o que quer que seja – é preciso ser mais –, e dá-lhe um nome, um rótulo para começar; e então a idéia de 'eu' passa a ser o principal investimento da vida. Se você olhar para o mundo aparente em que vivemos hoje, verá que se constrói em cima do ‘eu’. É tudo sobre a pessoa, sobre ser bem sucedido ou ser um fracassado. A gente cresce acreditando e reforçando a idéia de que existe alguém, de que esse alguém está em meio a uma viagem chamada ‘minha vida’, e de que tal viagem dura um tempo determinado. Todo investimento passa a se resumir então em "Eu sou uma pessoa e tenho que me realizar como tal". Assim listas a serem trabalhadas vão surgindo. Primeiro sobre ser um bom filho, depois sobre ser um bom aluno. Em seguida uma lista de exigências de como ser um bom trabalhador, normalmente acompanhada por uma de como ser um bom marido, esposa ou companheira. Algumas pessoas se voltam para a religião para descobrir o que é que está faltando em suas vidas, e novamente lhes é apresentada uma lista de exigências que têm necessidade de cumprir antes de poderem se tornar dignos ou aceitáveis. Há tantas idéias sobre como se deve viver quanto há pessoas no mundo. Além de um sem número de sutis níveis de realização pessoal – alguns deles negativos. Porque para algumas pessoas, fazer-se de vítima parece ser um grande sucesso! E jogam esse jogo simplesmente porque acreditam ser alguém. Começa-se a fingir ser alguém, e se leva isso tão a sério que se esqueçe estar fingindo – a pretensão de ser alguém se torna tudo. Muitas pessoas vivem a totalidade de suas vidas assim. Algumas, entretanto sentem que tendo passado por todas estas listas, ainda há algo que falta. Então pensam: “Talvez eu possa encontrar alguma coisa, uma terapia... Talvez um terapeuta possa me dizer o que está errado, o que está faltando”, de modo que iniciam uma outra lista. E de novo há a necessidade de se tornar algo para se tornar algo. Mas para alguns, por alguma razão, nenhuma dessas coisas, religião, terapia, seja o que for, parece ser suficiente. E num dado momento ouvem falar de algo chamado iluminação, talvez a última peça do quebra-cabeça. Então saem à procura de alguém fingindo ser um guru, de quem fingem ser discípulos. E um começa a edificar o outro. O mestre que vai ensiná-los a se tornar iluminados fica maior e maior, e eles se sentem cada vez mais importantes porque o seu mestre parece cada vez mais importante. Claro que é outro jogo maravilhoso da pretensão, com outra lista agregada ao cenário: a meditação. O “estar aqui e agora e não pensar”. Você pode ler os livros e ir ver esses caras que te dizem isso. E até pode estar 'aqui e agora' por até três ou quatro minutos, e talvez não pense por cinco segundos. Mas para ser honesto sobre a iluminação, você deveria, isso sim, era se jogar de um penhasco. É tudo fingimento, ao mesmo tempo em que é totalmente divino. Cada instante de sua vida até o presente momento tem sido absoluta perfeição divina. E nada poderia ter sido diferente. No conjunto, na forma e até nas escolhas aparentes, sua vida é totalmente adequada e divina. Não fosse a idéia do ‘você’ ser reforçada o tempo todo, a ênfase em que há alguém... A pretensão do ‘eu’ passa a ser reforçada até mesmo na busca da iluminação, porque o chamado mestre vai dizer a você: “Eu me tornei iluminado”. “Eu sou uma pessoa iluminada e você pode se tornar uma pessoa iluminada como eu”. Entretanto é uma falácia!, porque despertar, na verdade, é a constatação de que tudo o que está acontecendo – a idéia da existência de um 'eu' – é uma pretensão. É simples assim, absolutamente simples. Você finge ser você. Você finge estar aí sentado olhando para mim, tentando obter alguma coisa, quando na verdade não há ninguém sentado e nem nada para se obter.


(de um encontro com tony parsons)

1 comentários:

  1. Sem dúvida, o post mais impertinente. Que coisa! Vou cuidar do meu feijão e lavar minha roupa...
    Sim, este foi assim: 'O último post que vc leu na sua vida, a última coisa que vc precisa saber'... "Anula-se todas as disposições em contrário". Não!
    Tudo vai surgir, e tudo só viver. sem pré-requesitos... Como um lençol lavado, pendurado no varal a voar, o sol alto, as árvores do quintal da casa de minha vó.

    valeu mesmo fiorin.

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